
Thiago Kuerques
11 de mar. de 2020
Cria de Vilar dos Teles, em São João de Meriti, Ramon Lid está voltando para a terra natal para estrear no dia 11 de março no Sesc da cidade a exposição “Enquanto os Pássaros Ainda Vivem”.
Aos 31 anos, Ramon Lid diz que a arte retrata os pássaros como a simbologia. “É ser livre e não poder voar”, diz o artista. Já caminhou por entre as letras dos WildStyle Grafitti, que o trouxe até as atuais ilustrações femininas, onde encontrou uma facilidade natural para expor suas ideias e experiências.
Seus trabalhos carregam uma estética de sketch (rabiscos), inicialmente explorados somente no nanquim. A partir disso buscou traduzir a mesma estética com spray e nas telas, assim como a tonalidade do azul turquesa, criando uma marca característica em seus trabalhos. Sua arte sempre carrega um peso de símbolos que dizem muito sobre seus estudos e vivências, assim como o lettering (letras criadas a mão) que dá outro peso de linguagem nas entrelinhas dos riscos e imagens.
Nessa entrevista o grafiteiro fala sobre o início da carreira, suas referências, a dificuldade de ser artista e, claro, sobre o que é a exposição que se inicia.
Site da Baixada – Como você definiria o seu trabalho?Ramon Lid – “Meu trabalho do contraste do laranja com o azulturquesa é justamente pra chamar a atenção do que é óbvio e às vezes a gentenão vê. Então o azul turquesa é como se fosse falar que o negro é igual, é tãoigual, mas às vezes a gente precisa dar o absurdo para se mostrar. Representa aluta do povo periférico e todas as pessoas que se sentem à parte dos movimentosculturais. É como reflete a minha vida e de tantas pessoas que passam porcoisas que não precisariam [passar]”.
SB – Em relação à infância em Vilar dos Teles, como foi adescoberta da arte?RL – Sou de uma família pobre, nunca passei fome, mas passeimuitas privações na vida, na infância e tal. Minha mãe é costureira, tenho irmãprofessora de língua portuguesa, dois irmãos que são empreendedores emtecnologia e informática. Sempre foram minhas referências junto da minha mãe jáque perdi meu pai quando eu tinha dois anos. Não tive esse privilégio deconhecer meu pai. Foram eles que me alimentaram, são minha base. Minha mãesempre me mostrou a realidade. Me ajudou a me formar como homem, principalmentepor essa criação feita por uma mulher. Aos 12 anos minha mãe fazia minhasinscrições e me levava nos cursos de desenho. Na minha adolescência eu nãosabia o que queria fazer da vida. Meu irmão me orientou a fazer design gráficoe foi essa ferramenta que me aproximou da arte.
SB – As pessoas entendiam bem a sua paixão pelo grafite?RL – Ninguém entendia direito o que era grafitar, o motivode grafitar de graça. Eu explicava que na rua, o hip hop é sempre envolvido comquestões sociais, sempre voltado para um bem maior, para o conjunto, nunca ésozinho. Por isso todo mundo se ajuda, conhece outras pessoas. Hoje as pessoasentendem mais. Fui crescendo assim até chegar aqui com essa forma que encontreide viver. Sou design gráfico. Há pouco tempo larguei de trabalhar para osoutros e abri uma empresa, um MEI (Micro Empreendedor Individual) até pra fazeros meus corres de grafite e de arte, pra ter um respaldo e é mais seguro paraquem me contrata.
SB – O que são os pássaros da exposição?Dentro de várias simbologias que uso como ampulheta, rosas,entre outros, uso os pássaros por causa dessa sensação de liberdade que a gentevê, né? Dentro disso tem várias outras questões como ser livre mesmo e nãopoder voar. O que seria isso? Sou artista e não tenho o suporte necessárioainda para viver de arte, entendeu? Então é uma reflexão. As pessoas brincamque eu sou o passarinho e muitas das vezes é. Porque às vezes você tá preso en ão consegue achar um lugar pra expor, ou não tem o que expor, não tem comocriar.
Tenho essa liberdade hoje como artista, mas não me vejo comoartista. As pessoas me veem e se isso toca elas, então eu sou artista. Se não,sou só uma pessoa que tá tentando ganhar novos voos. Então, sou uma pessoacomum que sonha em ter essa liberdade.
SB – Como você lida com as dificuldades de fazer arte noBrasil? Como é o seu diálogo com outras formas de arte?Eu sendo da Baixada não vou me limitar em ir a outrospontos, quebrar esse tabu social de barreiras, entendeu? Então, ‘ah, não voupintar na zona sul porque sou da Baixada?’. Não! Vou criar ferramentas prapoder me movimentar artisticamente. Preciso ousar em fazer coisas pra poderconseguir novos rumos. Hoje moro com minha noiva Karol Bené em Bento Ribeiro,preciso me manter e ainda hoje não é só com a arte porque tenho que fazer muitofreelancer de design. Ela me dá muito suporte, é artista também.
Nota de destaque: Ramon Lid tem alguns trabalhos marcantes como o convite do DJ Sany Pitbull, em meados de 2018, para ilustrarseu disco “O Funk Canta Lulu” lançado em plataforma digital com um apanhado de versõesde músicas do Lulu Santos com uma roupagem de funk com interpretes funkeiroscomo Naldo Benny, Valeska, Mc Koringa, entre outros. Outro trabalho marcantefoi mural de 85 metros quadrados elaborado junto da noiva Karol Bené no CIEP AdãoNunes em projeto da Satrápia produções que homenageou alguns ícones culturais.Ramon e Karol desenvolveram um painel em homenagem a Zeca Pagodinho e, emhomenagem, um painel da ex-diretora Ademilda da Silva José Maria (em memória).
SB – Ramon, nessa sua caminhada quais são as suasreferências?É complicado porque a gente gosta de certos detalhes do queum artista faz, do outro mais da atitude. Uma vez minha irmã me levou pequenonuma exposição do Salvador Dalí. Aquilo foi um gatilho. Aos 15 anos eu faziapercurso Baixada-Centro-Niterói, sendo que tinha que pegar ônibus na Leopoldinapra ir pra Niterói. Nessa época eu tive várias influências como Fabio Ema – umdos percursores que expandiu o conhecimento do grafite e o que era o hip hop noRio de Janeiro. Outros também são Carlos Bobi, Marcelo Ment, Marcelo Eco, GilFaria, Marcio Grafite, Erko e Treco e Redley. Detalhe que com 13 anos vi umacapa d’O Rappa feita pelo Doze Green, um artista de Nova Iorque, do Rock SteadyCrew, veio passar um tempo aqui, conheceu o Marcelo Yuka e produziu o “Lado A,Lado B”. Ele teve essa vivência do Rio de Janeiro, do carioca, de favela. Eleconseguiu sintetizar na capa e foi um divisor de águas pra mim. Passei assimbuscar entender a arte. Foi com Dalí e Van Gogh que percebi que grafiteiropodia ter outras referências fora do hip hop, poderia saber o que era arteclássica, estudar mais.
Costumo dizer que o grafite é a porta de entrada para artesmais pesadas. Fui estudar arte contemporânea, arte brasileira, o que teve em1922 (Semana de Arte Moderna) pra ter embasamento, porque sem conteúdo a gentenão vai chegar a lugar nenhum. E hoje essa exposição que tô fazendo pra galeriatraz muito dessa mentalidade aí, pra eu não me fechar totalmente pro grafite,tanto que é meu laboratório preferido. Na rua as pessoas te param, te indagam.Então não sou nada se eu não fosse da rua. Não seria esse artista com essaexposição nessa galeria se eu não fosse da rua. Então essa verdade é quecarrego comigo, entendeu? Há uma diferença da rua pra galeria, mas é umamudança de mentalidade e oportunidade. Dar voos maiores como o pássaro.
SERVIÇO
Exposição Enquanto os Pássaros Ainda Vivem
De 11/03 a 31/05 | Ter a Sex 10h Às 16h, Sab 10h às 14h
Entrada francaSesc MeritiAv. Automóvel Clube, 66Centro, São João de Meriti
Mais informações: https://www.facebook.com/events/2277652012537384/
Reportagem: Thiago Kuerques